27/06/2009

Lados do círculo

Enterrou como o costume a cabeça num buraco aberto na terra, tal a uma avestruz africana. Mesmo não sendo a ave bípede e não havendo savana alguma, dali não tirou o crânio e o peito por um bom tempo. Às vezes se encontrava disposto a levantar e ver um pouco do que talvez fosse interessante e fizesse com que voltasse a ver a cor e imagem das coisas, dos outros. Mas esperava e acreditava que apenas algo especial o despertaria e o salvaria do seu sono esconde-esconde. Algum golpe de azar ou sorte. Ansiava então? É certo que não fazia muito por isso e também não imaginava como. Depois concluiu que não se espera fortuna ou ruína, nem as rumina. Um acho um quê de bom... d'um final feliz. Em meio a esfera dessas abstrações toscas, sabia é claro que estava distante e seria vital a aproximação, ao menos no início. Fazia chantagem consigo mesmo e coçava com irritação a nuca. Necessitava mais o tato que a mente, uma coisa que fosse tangível e palpável, concreta afinal de contas. Uma seqüência de linhas, objetos e sons poderiam passar rápido e sem importância e logo será feriado ou aniversário de um bom amigo. "Quanta grana para um pouco de gana?" pensou. Precisava urgente de algo substancial! Enquanto titubeava assim, ansiando alguma atitude decisiva, de repente lhe veio um estalo! Tudo aparecia menos obscuro. Era isso, só o que precisava era de... Um pouco de...

Enterrou o peito e o crânio.

André-André

10/06/2009

Shimbo

Cão! Certa vez veio ao mundo um filhote indigente num sítio em Araçariguama, confins da região de São Roque. Segundo boatos dos mais antigos, teria sido fruto de uma relação inadequada d'uma pastora alemã com um urubu do mato. Eles, tal qual se conta, teriam ido embora para a festa no céu da tartaruga sem casco. Na juventude sofreu por duas vezes envenenamento e foi seguidamente atropelado, causando até mesmo distúrbios no trânsito da cidade onde primeiramente assentou morada - na casa de uma família de sul-mato-grossenses que haviam fugido dos grandes temporais no fim dos anos oitenta - Mas, como exímio praticante do rapel de muros e árvores, superava facilmente essa barreira de seu território canino. Sempre audaz, surgiu diversas vezes das cinzas, melhor dizendo, do asfalto. Encontrado em terrenos baldios, esquecido pela sociedade civil e sempre amigo da matilha suburbana, esteve desaparecido por dois anos até ser visto como modelo de cartões de uma grande agência telefônica de São Paulo. Pode-se entender sua vida erótica e romântica através de um fato marcante: Foi terror das cachorrinhas no cio da rua do Padinha durante a primavera de dois mil e sete, quando ficou conhecido por sua intrepidez ao enfrentar cães de porte maior. Às vezes recorria, é verdade, ao seu grande companheiro Asdrúbal, o boxer. Ora, um cachorro esperto vale por duas raposas como todos sabem...

André-André